Sistemas alimentares humanos para pets e seus impactos convergentes
- Natalia Eliam
- 6 de jan.
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Este texto foi escrito como trabalho final da disciplina Histórico da Agricultura, da pós-graduação em Agroecologia que curso na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Publico este artigo com o desejo de provocar novas reflexões, especialmente sobre a forma como nossos sistemas alimentares impactam não apenas a saúde das pessoas, mas também a dos animais de estimação com os quais compartilhamos nossa comida, nossas experiências e, enfim, a nossa vida.
Nas últimas décadas, cães e gatos passaram a ocupar um lugar central nas famílias urbanas brasileiras, constituindo o que algumas autoras chamam de famílias multiespécie, fenômeno antropológico que vem exigindo até mesmo adaptações jurídicas a respeito do assunto para lidar, por exemplo, com questões análogas às situações parentais (Aguiar e Alves, 2021; Bolson, 2022; Osorio, 2019).
Animais de estimação, como cães e gatos, recebem o figurativo papel de filhos em núcleos familiares constituídos por pessoas. Em consequência dessa projeção, frequentemente esses animais passam pelo processo de desanimalização e infantilização, de modo que suas características distintivas são transfiguradas. A castração como forma de inibição de comportamentos naturais, o uso de roupas e acessórios que imitam vestimentas humanas, aplicações de produtos de higiene e beleza e o consumo do alimento industrializado e ultraprocessado são alguns exemplos de características que reforçam como tais indivíduos são involuntariamente afastados da própria natureza, conforme expõe a antropóloga e professora Andréa Osório (Osorio, 2019).
Dentro dos núcleos familiares multiespécie, é possível observar que o e crescente modelo alimentar da sociedade humana, que é baseado em produtos industrializados - ultraprocessados e dependentes de monoculturas - tem sido reproduzido de maneira automática nos sistemas alimentares que são destinados também aos animais de estimação. Por trás disso, está o fato de que o mercado que atua no setor de alimentação de cães e gatos é conduzido pelas mesmas grandes corporações globais que protagonizam a fabricação de ultraprocessados para humanos, e aumentam progressivamente seu faturamento no setor pet brasileiro, com receita total de 75,4 bilhões de reais (desses, 42,6 bilhões de reais unicamente no setor Pet Food) e crescimento de 9,6% no ano de 2024 (Instituto Pet Brasil e Abinpet, 2024).
Cães e gatos são popularmente chamados de pets. Esse termo é usado historicamente em inglês pelo menos desde o século XVI para designar um animal mantido como favorito, assim como são os animais de companhia (Spitzer, 1950). Ainda que esses animais possam apresentar comportamentos alimentares compatíveis com o onivorismo, característica que pode aproximá-los do modelo humano de alimentação, é importante destacar que eles pertencem a espécies que são biologicamente carnívoras, propriedade que inevitavelmente impõe diretrizes nutricionais distintas para esses pets.
Tal como qualquer animal carnívoro, cães e gatos são evidentemente seres bastante diferentes dos humanos. Possuem anatomia e fisiologia próprias, assim como necessidades nutricionais particulares. Ainda assim, esses animais estão igualmente inseridos na lógica industrial hegemônica que estrutura o consumo alimentar da sociedade. Essa mesma forma de pensar, ao orientar a alimentação dos animais de companhia, produz efeitos que se manifestam em dimensões pouco discutidas no campo da medicina veterinária, seja quanto ao tema do bem-estar individual desses animais, seja quanto ao tema dos impactos desse modelo de alimentação na saúde única e na biosfera, o que provavelmente ocorre em função do fomento do mercado que rege a produção de alimentos ultraprocessados direcionados para pets, principalmente as rações secas.
Cães, gatos e humanos compartilham um processo coevolutivo há milhares de anos. São espécies companheiras, como denomina a filósofa e zoóloga estadunidense Donna Haraway, especialmente e de modo aprofundado em sua obra “O Manifesto das espécies companheiras”, na qual aprofunda a narrativa sobre como cachorros e pessoas desenvolvem juntos o que seria a “alteridade significativa”, conceito baseado na ideia de que a interação humana com outras espécies, como a dos cães, por exemplo, não é apenas um encontro acidental, mas uma história partilhada (co-história, como coloca a autora), que molda ambas as partes (Haraway, 2003).
Entre todas as espécies domesticadas de animais, os cães foram os primeiros a passar por esse processo (Bergström et al., 2020; Tancredi; Cardinali, 2023). As evidências arqueológicas mais convincentes dos primeiros animais domesticados surgem após o fim da última era glacial, dos caçadores-coletores que viviam nas florestas europeias e nos bosques do Oriente Próximo (Mithen, 1999). Por isso, sabe-se que a aproximação entre humanos e cães aconteceu ainda no Pleistoceno, quando tais sociedades nômades de caçadores-coletores dependiam da caça de animais e da coleta de plantas silvestres para garantia de alimento.
Antes de se tornarem cães propriamente ditos, a espécie originou-se da diferenciação do lobo-cinzento (Canis lupus) em sua subespécie que hoje representa toda a infinidade de fenótipos conhecidamente chamados de cachorros, que representam a espécie com nome científico Canis lupus familiaris. Quando grupos de caçadores-coletores passaram a conviver com populações de lobos menos temerosos e mais tolerantes à presença humana, muitas vezes atraídos pelos restos das caças e pelos descartes alimentares, estabeleceu-se um cenário favorável para formas iniciais de coevolução (Tancredi; Cardinali, 2023).
Os indivíduos com temperamento mais dócil conseguiam se aproximar dos humanos, algo que, progressivamente, propiciou relações de benefício mútuo. Diante disso, abriu-se espaço para uma das primeiras expressões da influência humana sobre os processos de seleções evolutivas: lobos mais tolerantes e sociáveis tinham maior probabilidade de sobreviver nesse contexto, enquanto humanos se beneficiavam de sua presença, seja pela vigilância, seja pela cooperação em atividades de caça.
Assim, como resultado de um longo processo de interação entre humanos e populações de lobos, ao longo de dezenas de milhares de anos, os cães se estabeleceram como subespécie distinta. Esse processo ocorreu muito antes do período em que grupos de caçadores-coletores passaram a reorganizar suas territorialidades, quando tornaram-se mais sedentários, domesticaram outras espécies - inclusive, a dos gatos - e iniciaram o cultivo de plantas (Tancredi; Cardinali, 2023). Esses acontecimentos, juntamente com desenvolvimento da agricultura, caracterizam transições fundamentais do Holoceno e marcam a Primeira Revolução Agrícola, também conhecida como Revolução Neolítica.
O intenso processo de domesticação de animas e plantas que sucedeu a Revolução Neolítica não foi apenas uma inovação técnica, mas uma transformação nos modos de vida. A relação entre humanos e pets é historicamente longa e passa por muitas transformações. Durante um longo período, cães e gatos possuíram papeis funcionais no convívio multiespécie. Caça, controle de pragas, pastoreio e guarda são exemplos de funções que eram atribuídas à essas espécies, habituadas dentro de um papel fundamental que são - ou eram - capazes de executar de um modo que não é passível de mimetização. Nas sociedades contemporâneas, por outro lado, esses indivíduos passaram a ocupar funções primordialmente afetivas, honrando o que o termo pet designa para esses animais.
Nesse espectro, é necessário perceber que o modo como alimentamos cães e gatos hoje é resultado desse processo histórico e simbólico, que reflete nossa própria relação com a comida e com a natureza. Dentro dessa reflexão, evoca-se novamente o conceito de “espécies companheiras” elaborado pela autora Donna Haraway, que amplia a noção sobre o modo através do qual produzimos formas de viver compartilhadas, quando sugere que humanos e animais coevoluem culturalmente (Haraway, 2003). Sendo assim, é possível pensar sobre a maneira como alimentamos esses animais não como uma prática técnica, mas como uma construção social vigente.
Curiosamente, um dos conceitos centrais apresentados na obra “Mitológicas I: O cru e o cozido” publicada em 1964 pelo antropólogo, filósofo, sociólogo e professor Claude Lévi-Strauss, que, através da interpretação de mitos ameríndios, explora a distinção entre natureza e cultura, e evidencia o papel do fogo na formação das civilizações e a diferenciação entre humanos e animais, valendo-se dos conceitos "cru" e "cozido” para compreender estruturas do pensamento humano (Lévi-Strauss, 2021).
Nesse sentido, se o domínio do fogo e a capacidade de cozinhar alimentos são marcos civilizatórios que separam o mundo humano e animal e marcam a passagem da natureza para a cultura, estariam os humanos inevitavelmente reforçando a involuntária inserção cultural dos animais de estimação quando os alimentam com produtos ultraprocessados?
Se para Lévi-Strauss o cozimento marca a passagem da natureza (cru) para a cultura (cozido), hoje vivemos um estágio ainda mais distante da natureza, no qual os alimentos são “hipercozidos”, tão processados que dificilmente reconhecemos de onde e do que vieram. Com raiz em pesquisas brasileiras reconhecidas mundialmente, os alimentos ultraprocessados (Monteiro et al., 2019) são definidos como formulações alimentícias que utilizam substâncias derivadas de alimentos somadas a aditivos sintéticos para compor produtos comestíveis com datas de validade prolongadas e alto potencial lucrativo para a indústria que as produz.
A classificação NOVA de alimentos (Monteiro et al., 2019) estabeleceu diretrizes para a identificação do padrão existente nas formulações de ultraprocessados, o que posteriormente possibilitou a investigação e revelação sobre o fato de que o consumo dose-dependente desses produtos está fortemente relacionado ao desenvolvimento de doenças e mortalidade precoce na sociedade, junto à intensificação da devastação ambiental, como apontam evidências (Chen et al., 2023; Fiolet et al., Gomes Gonçalves et al., 2022; Nilson et al., 2022; Fardet; Rock, 2020).
É fundamental citar a contribuição da Revolução Verde na ascensão dos ultraprocessados. Em resumo, foi a partir da mecanização agrícola, do uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos, da seleção, exclusão e unificação da genética de sementes e propagação das monoculturas, objetivando o aumento da produção de alimentos em larga escala, que se tornou massiva a produção de commodities. Essa produção deixou os ingredientes básicos para a indústria de ultraprocessados, como óleos vegetais, grãos, açúcares e farinhas refinadas, extremamente abundantes e baratos.
Atualmente, a indústria de alimentos ultraprocessados adquire lucros massivos todos os anos, de modo que vende tais formulações não somente para as pessoas, mas também para seus animais de estimação. As rações secas foram normalizadas na percepção das pessoas em relação àquilo que se considera alimento para um pet. Entretanto, isso nada mais é que um ultraprocessado. Não por acaso, estatísticas apontam para o aumento de doenças crônicas em cães e gatos, analogamente ao que ocorre no contexto humano.
Como argumenta a filósofa e autora Vandana Shiva em “Monoculturas da Mente”, a expansão das monoculturas produz erosão ecológica e também uma erosão de pensamento, ao estabelecer um modo único de pensar (Shiva; De, 2003).
Os ultraprocessados, vendidos aos humanos e seus pets, refletem essa lógica de simplificação e lucro acima dos limites da vida. Reconhecer tais paralelos evidencia a urgência de transformar nossos sistemas alimentares, e abrir espaço para as práticas agroecológicas coerentes com as necessidades da família multiespécie.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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SOBRE A AUTORA

Natália Leão Eliam é médica-veterinária graduada pela Escola de Veterinária e Zootecnia da Universidade Federal de Goiás (EVZ - UFG) e aluna de pós-graduação em Agroecologia: novos paradigmas em sistemas alimentares sustentáveis pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC - PR).



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