O que são alimentos ultraprocessados?
- Natalia Eliam
- 4 de jun. de 2025
- 8 min de leitura
Muito provavelmente você já sabe que alimentos industrializados podem trazer malefícios para a saúde, e que é melhor evitá-los sempre que possível. Comida de verdade é mais saudável, e essa é uma ideia que acredito que todos nós carregamos no pensamento, embora nem sempre seja priorizada nas nossas escolhas alimentares.
Os conceitos sobre o que é ou sobre o que não é uma alimentação saudável fazem parte de um tema extenso, que frequentemente passa por atualizações. Muitas vezes, essas mudanças envolvem a alteração daquilo que antes era aceito como regra. "Manteiga faz mal e margarina é uma boa substituição". "Ovos são perigosos para a saúde cardiovascular, porque têm colesterol". Quem nunca ouviu essas coisas? E por quanto tempo você acreditou nelas, até descobrir que são inverdades?
Se você, assim como eu, é da geração dos millennials, provavelmente assistiu Meninas Malvadas e se lembra da cena em que Regina George pergunta para Cady Heron se manteiga é um carboidrato. Ela responde que sim... mas será que é mesmo?
Na verdade, manteiga é composta majoritariamente por gordura, e o carboidrato presente é praticamente irrelevante. Pode parecer um detalhe, mas essa sátira ilustra bem o quanto desconhecemos conceitos básicos sobre alimentação.
Eu, por exemplo, levei anos até descobrir que me alimentava de maneira inadequada. Isso certamente prejudicaria minha saúde no longo prazo. Na verdade, eu já notava os efeitos: tinha 24 anos, raramente comia manteiga ou ovos, mas apresentava dislipidemia e sobrepeso. O que eu estava fazendo de errado? Achei que precisava de mais atividade física, que era a genética, ou apenas o curso natural da vida e, só por último, olhei para a alimentação. Foi aí que a minha saúde começou a mudar.
Sendo assim, retomo a pergunta: o que eu estava fazendo de errado? São muitos os fatores que eu poderia elencar aqui, então comecemos por algo trivial, mas fundamental: o grau de processamento dos alimentos que eu costumava consumir.
A CLASSIFICAÇÃO NOVA DE ALIMENTOS
Nos últimos anos, foi destrinchada a definição do que é um alimento ultraprocessado pela classificação NOVA de alimentos. Muita gente ainda não sabe, mas esse termo foi cunhado por cientistas brasileiros, mais especificamente pelo epidemiologista e professor Carlos Augusto Monteiro e a equipe do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (NUPENS - USP).
A primeira publicação sobre o tema aconteceu em 2009, na revista Public Health Nutrition, com o artigo “Nutrição e saúde: o problema não está nos alimentos ou nutrientes, mas no processamento”. No ano seguinte, a proposta foi aprofundada no artigo “Uma nova classificação de alimentos baseada na extensão e propósito do seu processamento”, publicado na revista Cadernos de Saúde Pública (CSP).
Quatro anos depois, em 2014, foi publicado o Guia Alimentar para a População Brasileira, no qual a classificação NOVA foi adotada como referência oficial para embasar diretrizes nutricionais baseadas em saúde no Brasil e, nos anos seguintes, em diversos outros países. Esse documento rompeu com as recomendações tradicionais baseadas exclusivamente em cálculos de nutrientes, abordagem essa conhecida como nutricionismo, termo que é resultado da soma das palavras nutrição e reducionismo, criado pelo autor e pesquisador australiano Gyorgy Scrinis.
A classificação NOVA organiza todos os alimentos em quatro grupos, de acordo com o grau de processamento
Confira abaixo um breve resumo sobre cada um deles:
NOVA 1 - Alimentos in natura ou minimamente processados
Aqui encontramos a comida fresca, quase que inalterada. É o grupo dos alimentos in natura ou minimamente processados. Em outras palavras, são as partes comestíveis de plantas, animais, fungos, algas e a água, após serem retirados da natureza.

O termo minimamente processados indica que esses alimentos podem passar por processos que incluem a retirada de partes não comestíveis ou indesejadas, também a secagem, moagem, filtragem, torrefação, fervura, fermentação, pasteurização, refrigeração, congelamento e quando são colocados em embalagens a vácuo.
NOVA 2 - Ingredientes culinários
Aqui encontramos os ingredientes culinários processados, como óleos, manteiga, açúcar e sal. Eles são obtidos de alimentos do grupo NOVA 1 ou da natureza por processos como prensagem, refino, moagem e secagem.

Esses ingredientes não são consumidos sozinhos e normalmente são usados em combinação com alimentos do grupo NOVA 1 para preparar refeições.
NOVA 3 - Alimentos processados
Esse grupo traz os alimentos processados, como vegetais em conserva, peixes enlatados, frutas em calda, queijos e pães frescos. São produtos que trazem os alimentos do grupo NOVA 1 combinados com substâncias do grupo NOVA 2, como sal, açúcar ou óleo.

Eles geralmente contêm dois ou três ingredientes e são claramente versões pouco modificadas dos alimentos in natura. Podem ser consumidos isoladamente ou em combinação com outros alimentos, e não costumam substituir refeições inteiras.
NOVA 4 - Alimentos ultraprocessados
No grupo dos alimentos ultraprocessados temos exemplos clássicos de produtos como refrigerantes, lanches embalados, bolachas recheadas, carnes reconstituídas, pratos congelados pré-preparados e, no universo da alimentação dos pets, podemos elencar todas as rações secas e a maioria dos alimentos úmidos para cães e gatos.

Diferentemente dos processados, esses produtos são formulações feitas principalmente ou inteiramente de substâncias derivadas de alimentos como as proteínas hidrolisadas ou isolados de proteína do milho e da soja, juntamente com aditivos, sejam naturais, sejam sintéticos, contendo pouco ou nenhum alimento intacto do grupo NOVA 1.
Ou seja, ao olharmos para um ultraprocessado, imediatamente notamos a ausência de qualquer sinal de alimentos frescos. É um produto que foi tão modificado que se torna irreconhecível como algo que um dia foi comida.
O termo "ultraprocessado" nasce de uma sequência de várias etapas de processamento, que são usadas para combinar os ingredientes e criar o produto final
O ultraprocessamento tem como objetivo criar alimentos de marca que sejam práticos e convenientes. Eles duram meses nas prateleiras, são vendidos prontos para o consumo e são altamente tentadores porque são hiperpalatáveis. De modo essencial, são extremamente lucrativos, porque são fabricados com ingredientes de baixo custo e são projetados de modo estratégico para que possam substituir todos os outros grupos alimentares nas refeições das pessoas - e também dos nossos pets.

Na nutrição de cães e gatos, vende-se e/ou indica-se a ração seca partindo do pressuposto de que ela é um alimento completo e balanceado. Até hoje, a recomendação mais comum ainda é que o pet consuma exclusivamente a ração seca, pois, em teoria, isso garantiria uma nutrição adequada. Mas faz sentido pensar em uma nutrição saudável baseada em um único alimento? Todos nós sabemos que, para ser verdadeiramente saudável, uma rotina alimentar deve ser minimamente variada... certo?!
Antes de finalizarmos o tópico sobre os alimentos ultraprocessados do grupo NOVA 4, é importante que você saiba exatamente o que são as substâncias derivadas de alimentos e os aditivos, para não se confundir ao julgar um alimento industrializado.
Todo ultraprocessado é industrializado, mas nem todo industrializado é um ultraprocessado
A presença desses dois elementos, ou seja, as substâncias derivadas de alimentos e os aditivos, é o que vai te ajudar a saber se o que está diante de você é, de fato, um ultraprocessado.
Substâncias derivadas de alimentos podem ser identificadas como algo que vem de um alimento, mas não é o alimento em si. Para discernir, pergunte-se: esse ingrediente é algo que eu costumo usar em casa para cozinhar? Se a resposta for sim, isso é um bom sinal. Se não for, é bem provável que você esteja diante de uma substância derivada de um alimento, e não de um ingrediente alimentar.
Abaixo, cito alguns exemplos de substâncias derivadas de alimentos.
Você costuma cozinhar em casa com algum desses itens?
Variedades de açúcares (frutose, xarope de milho com alto teor de frutose, concentrados de suco de fruta, açúcar invertido, maltodextrina, dextrose, lactose), óleos modificados (óleos hidrogenados ou interesterificados) e fontes de proteína (proteínas hidrolisadas, isolado proteico de soja, glúten, caseína, proteína do soro do leite "whey protein" e carne mecanicamente separada)Aditivos são substâncias que podem ser naturais ou sintéticas e são sempre adicionadas na composição de um ultraprocessado, com finalidades diversas. Eles frequentemente têm a função de imitar ou aprimorar qualidades sensoriais, ou até mesmo mascarar defeitos do produto final.
No caso dos aditivos, podemos aplicar a mesma regra: ao notar o possível aditivo na lista dos ingredientes, pergunte-se: é algo que eu costumo usar para cozinhar em casa?
São exemplos: corantes, conservantes, aromatizantes, realçadores de sabor, emulsificantes, adoçantes, espessantes, antiespumantes, agentes de volume, gelificantes, entre outros "-antes". Qualquer exemplo dessas classes de aditivos já identifica um produto como ultraprocessado.
Consumo de ultraprocessados e impactos na saúde
Retomo aqui a pergunta do início: o que eu estava fazendo de errado com a minha alimentação há alguns anos atrás?
Eu estava em uma rotina de alimentação cheia de ultraprocessados, mas nem fazia ideia de quem eram esses alimentos, nem dos impactos que poderiam causar na minha saúde. Depois que eu soube, tudo mudou. Por isso, com esse conteúdo, espero ajudar a entender melhor sobre o assunto e, quem sabe, contribuir para escolhas alimentares mais conscientes.
Cada vez mais estudos vêm mostrando que o consumo de ultraprocessados está diretamente ligado a problemas graves de saúde. Estamos falando de doenças crônicas não transmissíveis, como obesidade, diabetes tipo 2 e outras doenças metabólicas, hipertensão, câncer, declínio cognitivo, depressão e até aumento no risco de morte precoce.
No Brasil e também em diferentes partes do mundo, pesquisas acompanharam milhares de pessoas e chegaram a conclusões semelhantes:
Quanto maior a quantidade e proporção calórica dos ultraprocessados na alimentação diária, maiores os danos à saúde.
Em uma dessas pesquisas, por exemplo, o grupo que mais consumia esse tipo de produto teve um aumento de 26% no risco de mortalidade. Em outra, esse risco chegou a subir 62%.
Estamos diante de evidências consistentes de que esse padrão alimentar, que é baseado em produtos ultraprocessados, está nos adoecendo e encurtando as nossas vidas
Muitas vezes, esses alimentos ocupam um espaço enorme na rotina de alimentação das pessoas, substituindo o que realmente nutre. Esse é um tema complexo, que envolve outras camadas importantes e que, por ora, não vou aprofundar nesta publicação, para que o conteúdo não se estenda demais. São questões como a insegurança alimentar, as dificuldades de acesso aos alimentos frescos, a falta de tempo e, muitas vezes, até de energia mental - para cozinhar, além dos enormes impactos ambientais gerados por essa indústria, entre outros tópicos.
E para os nossos pets?
Se, para os humanos, já sabemos que esse tipo de alimentação é prejudicial mesmo quando representa apenas parte do que é consumido, imagine o que acontece com cães e gatos que vivem exclusivamente à base de ultraprocessados, como é o caso da ração seca, indicada como alimento completo e único para a maioria deles?!
É importante saber que a ração seca é um produto ultraprocessado, feito a partir de ingredientes de baixo custo e substâncias derivadas de alimentos, e que sempre recebe aditivos, sejam naturais, sejam sintéticos, além da ausência de alimentos íntegros na composição. E, embora ainda seja vendido como a melhor opção, é importante refletir:
Será mesmo saudável basear toda a vida alimentar de um ser vivo em um único produto, sempre da mesma forma, todos os dias?
Talvez esteja na hora de questionar o que estamos chamando de nutrição adequada. Se o objetivo é promover saúde, bem-estar e longevidade, é necessário olhar com mais responsabilidade para aquilo que oferecemos aos nossos cães e gatos.
Eu trabalho exclusivamente com a nutrição de cães e gatos há alguns anos e testemunho diariamente como a comida verdadeira, planejada de acordo com as necessidades nutricionais da espécie, pode transformar vidas. Ou até mesmo salvá-las.

Se você está considerando mudar a alimentação e a saúde do seu amigo de quatro patas, ficarei feliz em ajudar.
Entre em contato para mais informações e orientações personalizadas!
Atenciosamente,
Natália.




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