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Modalidades de alimentação natural

  • Foto do escritor: Natalia Eliam
    Natalia Eliam
  • 25 de mai. de 2025
  • 11 min de leitura

Atualizado: 2 de jun. de 2025

A alimentação natural para cães e gatos pode ser planejada e executada em quatro modalidades distintas. Cada uma dessas modalidades possui suas vantagens e desvantagens, e a escolha da modalidade ideal deve considerar as características individuais do cão ou do gato.


Em outras palavras, não existe uma regra universal sobre qual modalidade é melhor ou pior. O que há são cenários e necessidades individuais, e a escolha da modalidade deve ser feita com base na realidade de cada animal.


Sabendo disso, vamos conhecer as modalidades de alimentação natural para cães e gatos?




1 - MIX FEEDING


O mix feeding refere-se à prática de combinar alimentos caseiros com a ração seca na alimentação diária de cães ou gatos.



Na prática, percebo que muitas pessoas já adotam o mix feeding em casa sem sequer perceber ou saber que essa prática tem um nome específico e uma forma correta de se fazer. Muitas vezes, essas pessoas acabam misturando alimentos inadequados na alimentação dos seus animais em quantidades aleatórias, o que faz com que essa prática seja frequentemente desencorajada por médicos veterinários.


Você já ouviu a recomendação de que cães e gatos devem consumir apenas ração e nada mais?

Ocorre que o mix feeding, se realizado de forma incorreta, pode de fato comprometer a saúde do animal. Portanto, é crucial buscar orientação de um profissional especializado em nutrição de cães e gatos para desenvolver um plano alimentar individualizado e adequado às necessidades da espécie.


É comum encontrar pessoas que utilizam a ração seca como base alimentar para seus animais e complementam com a adição de frutas, vegetais e até mesmo grãos, como o arroz. Se você leu nosso post sobre os malefícios da ração seca, já sabe que ela frequentemente possui alta carga glicêmica, ou seja, contém quantidades elevadas de carboidratos na composição.


Nesse contexto, se a dieta já é rica em carboidratos e fibras provenientes da ração, qual seria o sentido de adicionar frutas, vegetais e grãos? Essa prática apenas intensifica o excesso de carboidratos na alimentação, o que não é ideal para a saúde nutricional de carnívoros domésticos. Para gatos, que são uma espécie obrigatoriamente carnívora, essa questão é ainda mais relevante.


Portanto, no mix feeding, o ideal em termos nutricionais é garantir a adição de fontes de proteínas pouco processadas e gorduras cruas, que estão pouco presentes nas rações secas.

Dessa forma, é possível tornar o protocolo alimentar mais alinhado com as necessidades nutricionais das espécies, reduzir a carga glicêmica das refeições e, assim, contribuir para a saúde e bem-estar do cão ou gato.


Em relação às quantidades, a individualização é fundamental. Dependerá das necessidades específicas do cão ou gato, da idade, do nível de atividade física e da disponibilidade do tutor para preparar e manusear os ingredientes que serão adicionados.


Para esclarecer, é possível ajustar a distribuição das calorias da alimentação do seu pet em um amplo espectro de opções. Deseja destinar 20% das calorias em alimentos naturais e os outros 80% em ração seca? Isso é totalmente viável. Prefere destinar 80% das calorias em alimentos naturais e apenas 20% em ração seca? Também é uma opção.


Para elaborar um planejamento dessa natureza, é crucial passar por uma consulta nutricional com um profissional capacitado, como eu que escrevo este texto.

Com base nas informações individuais do peludo, é possível planejar a quantidade necessária de cada nutriente, como carboidratos, proteínas, gorduras, vitaminas e minerais, ajustando-os de acordo com a distribuição calórica de forma a atender às necessidades nutricionais da espécie, evitando deficiências ou excessos nutricionais.


Em resumo, para concluir o tópico sobre o mix feeding, que é uma excelente modalidade para começar no universo da alimentação natural, é essencial buscar orientação profissional para adotar essa prática corretamente e, assim, contribuir para a otimização da saúde do seu cão ou gato.



2 - ALIMENTAÇÃO NATURAL COZIDA


A alimentação natural cozida é uma das modalidades mais difundidas no Brasil, e há vários motivos que podemos destacar para essa popularidade. Em primeiro lugar, um dos principais motivos para a popularidade da alimentação natural cozida é que a composição dos cardápios se assemelha, até certo ponto, à de uma refeição humana comum.


Normalmente, inclui-se carnes cozidas, legumes e vegetais também cozidos, algumas possíveis fontes de gorduras adicionadas e, por fim, um suplemento multivitamínico. Essa é uma composição básica, mas é possível enriquecê-la com a adição de ovos e peixes cozidos, frutas, fermentados lácteos, ervas frescas, sementes, entre outros ingredientes.



Na alimentação natural, independentemente da modalidade que escolhemos, uma das diretrizes que devemos seguir é garantir que não existam deficiências nutricionais no protocolo de alimentação.

Todos os nutrientes essenciais devem estar presentes na rotina de alimentação, e esse é um dos principais motivos pelos quais a suplementação é frequentemente necessária, especialmente na modalidade cozida.


Apesar de ser familiar, uma refeição composta por carnes cozidas, legumes e vegetais cozidos, com a adição de gorduras, assegura a presença de macronutrientes como proteínas, gorduras e carboidratos, além da parte de fibras. No entanto, a quantidade de micronutrientes, como vitaminas e minerais, é insuficiente.


Isso ocorre por alguns motivos específicos, como o próprio tratamento térmico dos alimentos. Ao cozinhar os ingredientes mencionados, uma parte significativa das vitaminas do complexo B, outras vitaminas hidrossolúveis e minerais pode ser perdida devido à lixiviação pela água do cozimento e à degradação química causada pela alta temperatura.


Além disso, naturalmente, essa composição de alimentos não consegue fornecer adequadamente minerais essenciais como cálcio, fósforo e magnésio, que são necessários para cães e gatos, organismos carnívoros por natureza. Essas espécies evoluíram ao longo de milhares de anos consumindo presas na natureza, o que torna suas exigências nutricionais significativas para esses minerais, encontrados principalmente nos ossos e carcaças de suas presas.



Particularmente na espécie felina, as exigências nutricionais são ainda mais rigorosas. Ao contrário dos cães, o metabolismo dos gatos requer o consumo diário do aminoácido taurina, que é parte de uma proteína e é facilmente degradado com o mínimo aumento de temperatura. Portanto, em uma dieta para gatos, independentemente da modalidade, é crucial garantir a suplementação adequada de taurina. A falta desse nutriente pode levar a problemas cardíacos e até mesmo ao óbito.


Por isso, vale repetir: é necessário garantir que ocorra o consumo de todos os nutrientes essenciais, especialmente aqueles que não estão presentes nos alimentos, e a principal maneira de fazer isso é através da suplementação, que pode ser obtida através de um produto comercial específico para a finalidade, ou manipulada de acordo com as necessidades individuais do cão ou gato.


Para planejar a suplementação individualizada na modalidade cozida, é indispensável consultar um profissional médico veterinário ou zootecnista especializado em nutrição de cães e gatos.

O planejamento envolve cálculos matemáticos específicos, os quais não vou detalhar aqui.


Para concluir o tópico sobre alimentação natural cozida, deixo claro que é uma excelente opção, especialmente para iniciantes no mundo da alimentação natural, para animais debilitados e/ou com paladar seletivo. Como vimos, ela deve ser cuidadosamente planejada para atender às necessidades nutricionais das espécies, e também do indivíduo. Quando bem elaborada, sem dúvida contribuirá para a saúde e longevidade do peludo.



3 - ALIMENTAÇÃO NATURAL CRUA SEM OSSOS


A modalidade de alimentação natural crua sem ossos é bastante semelhante à modalidade cozida em relação à composição dos cardápios. No entanto, o detalhe significativo que torna essa modalidade mais rica, em termos nutricionais, é justamente a ausência de cozimento das carnes.



Nessa abordagem, as carnes são consumidas totalmente cruas, juntamente com os legumes e vegetais cozidos, além da adição de gorduras, óleos e suplementos.

Não é incomum observar a hesitação por parte dos tutores e até mesmo de médicos veterinários quanto ao consumo de carnes cruas. Isso ocorre porque, para nós humanos, essa prática é frequentemente desencorajada devido ao risco de adoecimento por contato com bactérias e outros agentes infecciosos. E essa preocupação faz total sentido para nós.


Para cães e gatos, a natureza atua com regras diferentes.

Como espécies carnívoras, os ancestrais que deram origem aos cães e gatos evoluíram durante milhares de anos consumindo presas inteiras na natureza. Isso inclui carnes, vísceras e ossos carnudos crus, junto com toda a carga microbiológica que isso implica. Em breve vou publicar uma postagem específica sobre segurança alimentar e medidas de congelamento profilático no consumo das carnes cruas.


Mas afinal, por que a carne crua poderia ser melhor do que a carne cozida?


Dentro de um pedaço de carne crua, em uma escala microscópica e além do que nossos olhos podem perceber, encontramos diversos nutrientes em seu estado puro e inalterado, como aminoácidos, proteínas, vitaminas e minerais. Quando submetidos a altas temperaturas, esses nutrientes são quimicamente e fisicamente alterados ou destruídos, a depender do quanto são aquecidos, e também do tempo de duração desse aquecimento.


Vou explicar melhor...


Quando aquecemos alimentos ricos em proteínas, como são as carnes, essas proteínas reagem com pequenos carboidratos e formam um terceiro elemento, conhecido como produto final de glicação avançada. A mudança de cor que observamos nas carnes após o cozimento é resultado da formação desses compostos, e essa reação química é conhecida como Reação de Maillard.


Carne queimada, típico exemplo da reação de Maillard
Carne queimada, típico exemplo da reação de Maillard

Quanto mais elevada for a temperatura e quanto mais tempo o alimento permanecer nessa temperatura, maior será a formação desses compostos. E ao consumir alimentos ricos nesses compostos, sobrecarregamos nosso organismo com eles.


Para evitar essa sobrecarga, o consumo de carne crua pode ser mais benéfico para a saúde geral de cães e gatos, especialmente se eles apresentam condições específicas como obesidade e/ou doenças degenerativas.

É importante citar que, para humanos, cães e gatos, dentro de nossos corpos, esses compostos de glicação avançada também são formados de forma natural e controlada. Em um organismo saudável, há um equilíbrio entre a formação natural dessas substâncias pelo corpo e o consumo através da alimentação.


No entanto, em condições de saúde como obesidade, frequentemente associada à resistência à insulina, juntamente com doenças crônicas degenerativas como doença renal, cardíaca ou hepática, há um exagero na formação desses compostos dentro do próprio organismo.


Esses compostos atuam como gatilhos para a produção de substâncias inflamatórias, de maneira sistêmica. Nesse contexto, evitar o consumo pela alimentação pode ajudar a reduzir a sobrecarga na resposta inflamatória do corpo.


É importante ressaltar que esses fatores, isoladamente, não determinam o desfecho clínico de um paciente.


O estado geral de saúde de um cão ou gato é continuamente influenciado por diversos outros aspectos além do consumo de produtos finais de glicação avançada. Precisamos avaliar cuidadosamente todos eles.


Por isso, reforço a importância de contar com o acompanhamento profissional na alimentação do seu animal.

Consumir carne crua não garante, automaticamente, que o organismo do paciente terá menos inflamação, e nem o contrário. A individualização é essencial; cada animal tem suas particularidades. Como mencionei no início da postagem, não há uma regra única que se aplique a todos os cães e gatos.


Após esse breve desvio, vamos seguir com o assunto sobre a modalidade?


Antes de encerrar o tópico sobre a alimentação natural crua sem ossos, é importante abordar a questão da suplementação. Assim como na alimentação cozida, a crua sem ossos não consegue fornecer, em quantidades adequadas, minerais essenciais como cálcio, fósforo e magnésio apenas com seus ingredientes.



Portanto, a suplementação torna-se necessária e deve ser calculada de forma individualizada. Assim como na dieta cozida, a suplementação pode ser obtida através de produtos comerciais ou ser manipulada de acordo com as necessidades específicas de cada cão ou gato.


Para concluir, é importante ressaltar que há um amplo espectro entre uma carne completamente cozida e uma carne completamente crua.


Antes de adotar uma dieta crua sem ossos, prefiro sugerir uma transição gradual, na qual o ponto de cozimento da carne seja reduzido progressivamente (bem passado -> ao ponto -> mal passado -> cru) em vez de abruptamente (bem passado -> cru).


Essa abordagem permite explorar cuidadosamente o espectro de cozimento da carne e diminui as chances de o cão ou gato demonstrar o comportamento de seletividade com o alimento, já que há inevitáveis mudanças no cheiro, sabor e textura entre carnes cruas e cozidas.


Além disso, gradualmente "treinamos" o organismo, incluindo a microbiota intestinal, para aprender a digerir, absorver e metabolizar os ingredientes crus e seus nutrientes.



4 - ALIMENTAÇÃO NATURAL CRUA COM OSSOS


A modalidade crua com ossos, também conhecida como alimentação bioapropriada, envolve o uso de ossos carnudos crus, carnes cruas, peixes crus e vísceras cruas. Além disso, podemos explorar a adição de ovos, crus ou cozidos, e pequenas quantidades proporcionais de vegetais, frutas, sementes e fermentados lácteos.



Ao considerarmos as necessidades nutricionais das espécies, ou seja, os nutrientes que os cães e gatos precisam consumir regularmente através dos alimentos...


a modalidade crua com ossos se destaca por ser a única capaz de atender a essas exigências sem a necessidade de grandes quantidades de suplementação.

Isso ocorre porque os ingredientes comumente utilizados nessa modalidade fornecem naturalmente os nutrientes essenciais em níveis satisfatórios, deixando poucas lacunas nutricionais a serem corrigidas, o que pode ser feito através da suplementação - comercial ou individualizada.


Assim, é possível garantir uma dieta equilibrada para os animais carnívoros domésticos com maior praticidade e eficiência. Entretanto, essa modalidade ainda é pouco difundida no Brasil e muitas vezes causa estranheza entre médicos veterinários, zootecnistas e tutores. Isso se deve ao fato de que, além do consumo de carnes cruas, também envolve o consumo de ossos, algo que geralmente causa apreensão à primeira vista.


Se você nunca explorou o tema das dietas naturais para cães e gatos, é possível que ainda acredite que oferecer ossos a cães e gatos seja potencialmente perigoso.


É comum, no senso comum, condenar essa prática, já que muitos conhecem histórias de animais que consumiram ossos e acabaram precisando de intervenção veterinária, ou até mesmo situações mais graves e com finais trágicos.


No entanto, o detalhe crucial que diferencia um cenário em que o animal é prejudicado pelo consumo de ossos é que, nos casos em que o cão, ou gato, adoece após a ingestão, o osso oferecido certamente estava cozido. É importante compreender essa distinção para entender os benefícios e a segurança da alimentação crua com ossos.


Um osso cru é completamente diferente de um osso cozido, são duas coisas distintas e não podem ser equiparadas.

Assim como temperaturas elevadas provocam alterações físicas e químicas nos alimentos ricos em proteínas - como por exemplo as carnes - modificando sua composição original, como explicado anteriormente no tópico sobre a modalidade crua sem ossos, o aquecimento dos ossos também resultará em mudanças irreversíveis em sua estrutura, transformando-os em algo diferente do que eram antes.


Um osso carnudo 100% cru, ou seja, em seu estado original, sem ser previamente aquecido, cozido, frito ou assado, pode ser normalmente digerido por cães e gatos sem maiores problemas, assim como as carnes e as vísceras cruas.

Um osso carnudo cozido, ou aquecido previamente de alguma outra forma - frito, assado, defumado, desidratado - sofre consequentemente a desnaturação e perda do colágeno natural presente nesse ingrediente, responsável por garantir sua maleabilidade. Além disso, ocorre uma excessiva formação de produtos finais de glicação avançada, reação detalhada anteriormente no tópico sobre a modalidade crua sem ossos.



Isso resulta na formação de uma estrutura mineral rígida, que pode se fragmentar em lascas pontiagudas, de difícil digestão e, ainda, são altamente inflamatórias devido à presença exagerada dos compostos de Maillard, formados pelo aquecimento.


Por isso, jamais ofereça ossos cozidos ou aquecidos para um cão ou gato, o consumo de ossos carnudos só é seguro quando esses ingredientes estão 100% crus.

Mas afinal, o que seriam ossos carnudos, não é mesmo?


Ossos carnudos são cortes de animais que incluem a parte de ossos, como, por exemplo, pescoço, coxa, sobrecoxa, asas e dorso de aves, que são os ossos carnudos mais comumente utilizados na alimentação natural crua com ossos. Talvez você esteja se questionando imediatamente se os ossos de frango são utilizados.


A resposta é sim, obviamente. Como você acabou de aprender neste post, o perigo dos ossos está no cozimento; se estiverem crus, podem ser consumidos integralmente, inclusive os de frango, que são as maiores vítimas do preconceito de que "ossos de frango" fazem mal, quando na verdade é apenas o cozimento que representa riscos.


Por enquanto, encerraremos aqui a discussão sobre as modalidades de dietas.


O post ficou muito grande, então talvez eu faça algo mais detalhado sobre cada uma das modalidades, porque ainda é possível falar bastante sobre cada uma. Se você está considerando mudar a alimentação e a saúde do seu amigo de quatro patas, ficarei feliz em ajudar.


Entre em contato para mais informações e orientações personalizadas!

Atenciosamente,

Natália.

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