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Ensaio sobre agroecologia, antropologia e alimentação multiespécie nos sistemas alimentares contemporâneos

  • Foto do escritor: Natalia Eliam
    Natalia Eliam
  • 25 de fev.
  • 7 min de leitura

Este texto foi escrito como trabalho final da disciplina Políticas públicas, economia e mercados, da pós-graduação em Agroecologia que curso na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Publico este artigo com o desejo de provocar novas reflexões, especialmente sobre a forma como nossos sistemas alimentares impactam não apenas a saúde das pessoas, mas também a dos animais de estimação.


Se os sistemas alimentares revelam as formas pelas quais uma sociedade habita o mundo, o modo como alimentamos os animais com os quais convivemos revela, de certo modo, nossa concepção de economia, cuidado e relação com a vida. Nas cidades, atualmente os cães e gatos ocupam lugar central nas famílias e participam daquilo que vem sendo descrito como família multiespécie (Aguiar e Alves, 2021; Osorio, 2019). Entretanto, enquanto esses animais se aproximam afetivamente dos humanos, seus modos de alimentação passam a refletir, quase sem questionamento, o padrão alimentar industrial dominante, ou seja, produtos ultraprocessados, dependentes de monoculturas e de cadeias produtivas globais.


Esse cenário permite uma pergunta que ultrapassa a nutrição animal: o que o sistema alimentar destinado aos animais de companhia revela sobre nossa relação com a economia, o mercado e as políticas públicas?


Ao colocar em diálogo a agroecologia e a antropologia, torna-se possível compreender que alimentar não é apenas um ato técnico, mas um fenômeno social, que engloba também a ecologia. Esse diálogo evidencia que a hegemonia dos ultraprocessados na alimentação de cães e gatos expressa a lógica econômica dominante, que transforma alimento em mercadoria desvinculada de território, cuidado e reciprocidade. Em contraposição, a agroecologia e a antropologia revelam o alimento como relação viva e abrem espaço para pensar sistemas alimentares baseados no cuidado e na interdependência entre todas as espécies.


A antropologia contribui para esse debate ao demonstrar que as práticas alimentares são construções culturais e históricas. Para além disso, faz-se necessário elencar que pessoas e animais de companhia compartilham uma longa trajetória coevolutiva, marcada por interdependências alimentares, que são práticas e simbólicas, ideia principal da obra “O manifesto das espécies companheiras” da autora Donna Haraway, filósofa e zoóloga estadunidense (Haraway, 2003).


Nas sociedades atuais, essa relação assume caráter predominantemente afetivo, mas continua sendo mediada por práticas concretas de cuidado, entre as quais a alimentação ocupa papel central. Nesse sentido, pode-se dizer que alimentar o outro é reconhecer sua existência, suas necessidades e sua singularidade.


A expansão do consumo de ultraprocessados destinados aos animais de companhia, denominados “pets” (Spitzer, 1950), não pode ser compreendida apenas como uma escolha banal. Trata-se da reprodução automática de um modelo alimentar industrial que também estrutura a alimentação humana. Grandes corporações globais dominam simultaneamente os mercados de alimentos ultraprocessados para pessoas e para animais, e assim consolidam um sistema baseado na padronização, na durabilidade e no lucro. Esse modelo desloca o alimento de sua dimensão relacional e ecológica, e o transforma em objeto técnico e mercantil.


A agroecologia, por sua vez, propõe uma leitura distinta dos sistemas alimentares. Ao compreender o alimento como resultado de interações entre solo, biodiversidade, cultura e trabalho, ela rompe com a ideia de que a comida é apenas um insumo produtivo. Sistemas alimentares agroecológicos valorizam a diversidade biológica, os circuitos curtos de comercialização, os saberes locais e a autonomia alimentar. Nessa perspectiva, a agroecologia não se limita a um conjunto de técnicas agrícolas, mas constitui uma crítica ao modelo produtivista e às formas de economia que subordinam a vida à lógica do mercado.


Quando aplicada à alimentação de animais de companhia, essa visão revela um campo ainda pouco explorado. A hegemonia das rações ultraprocessadas sustenta-se por cadeias longas de produção, uso intensivo de insumos químicos e dependência de monoculturas que abastecem exatamente a mesma indústria alimentícia direcionada aos humanos. Ao mesmo tempo, agricultores familiares e produtores agroecológicos permanecem excluídos dessa cadeia alimentar, apesar de possuírem potencial para fornecer alimentos frescos, locais e biologicamente apropriados.


A invisibilidade da alimentação de cães e gatos nas políticas públicas de segurança alimentar e desenvolvimento rural reforça essa contradição. Embora o setor movimente bilhões, de modo progressivamente crescente, e impacte diretamente a saúde animal, humana e ambiental, ele permanece à margem dos debates sobre sistemas alimentares sustentáveis. Essa ausência revela os limites de uma concepção de segurança alimentar centrada exclusivamente na espécie humana, desconsiderando a interdependência que caracteriza a convivência multiespécie.


A contribuição da antropologia torna-se ainda mais interessante quando consideramos a obra “Ensaio sobre a dádiva” de Marcel Mauss (Mauss; Levi-Strauss, 1988). Ao analisar as perspectivas da dádiva, Mauss demonstra que a troca não se reduz à lógica utilitária do mercado. Dar, receber e retribuir constituem atos que, inevitavelmente, criam vínculos, responsabilidades e relações. A dádiva não é um simples objeto ofertado entre indivíduos, pois ela carrega consigo intenções e afetos.


Ao considerar essa questão, é possível refletir que alimentar cuidadosamente um animal de companhia pode ser compreendido como um gesto de dádiva. O alimento oferecido não é apenas mera matéria nutricional, pois ele expressa cuidado e responsabilidade perante às necessidades individuais. Quando a alimentação se reduz a um produto industrial padronizado, desvinculado das necessidades biológicas da espécie e dos contextos ecológicos de sua produção, o gesto tende a se esvaziar de sua dimensão relacional. O alimento torna-se objeto sem história, sem território e sem vínculo. Nesse cenário, não é uma dádiva.


Do outro lado, oferecer um alimento biologicamente apropriado para as espécies, produzido de forma ética e conectado ao território, transforma o ato de alimentar em prática de cuidado. Trata-se de reconhecer o animal não-humano como sujeito de necessidades próprias e como integrante de uma rede de interdependências que inclui indivíduos, ecossistemas e comunidades.


Essa mudança de perspectiva permite compreender que o cuidado alimentar fortalece os vínculos dentro da família multiespécie. Ao respeitar a natureza biológica dos animais e ao escolher alimentos que não reproduzam lógicas destrutivas, os denominados “tutores”, que são os responsáveis por seus animais de companhia, exercem uma forma concreta de responsabilidade. O hábito de alimentar torna-se, assim, um elo que sustenta a convivência entre espécies.


A hegemonia dos ultraprocessados, entretanto, evidencia a força de um modelo econômico que naturaliza a mercantilização da vida. A padronização alimentar produz dependência, reduz a autonomia dos tutores e contribui para impactos ambientais associados à expansão das monoculturas e ao uso intensivo de recursos naturais. Paralelamente, observa-se o aumento de doenças crônicas não transmissíveis em cães e gatos, fenômeno que repercute as mesmas tendências observadas na saúde humana e que reforça a interdependência entre sistemas alimentares e saúde coletiva.


O diálogo entre agroecologia e antropologia permite problematizar a ideia de que o mercado constitui a única forma possível de organização econômica. Experiências baseadas em circuitos curtos de produção, agricultura familiar e sistemas agroecológicos demonstram que outras economias são possíveis, centradas na reciprocidade, no cuidado e no uso comum dos recursos. Integrar a alimentação de animais de companhia a essas iniciativas pode fortalecer economias locais, diversificar sistemas alimentares e ampliar a autonomia alimentar das famílias.


Nesse sentido, políticas públicas desempenhariam papel fundamental. Reconhecer a alimentação de cães e gatos como parte dos sistemas alimentares permitiria desenvolver programas que articulem agricultura familiar, produção agroecológica e saúde única. Projetos municipais com a participação de médicos-veterinários, compras institucionais e iniciativas educativas poderiam promover o acesso a instruções corretas sobre alimentação caseira para pets, possíveis alimentos frescos e adequados, ao mesmo tempo em que fortaleceriam economias territoriais e reduziriam os impactos ambientais.


Ampliar o conceito de segurança alimentar para incluir a família multiespécie não significa reduzir a centralidade da justiça alimentar humana, mas reconhecer a interdependência que sustenta a vida. Humanos, outras espécies de animais e ecossistemas compartilham sistemas alimentares e vulnerabilidades comuns. Ignorar essa conexão implica perpetuar soluções fragmentadas para problemas sistêmicos.


Ao aproximar agroecologia e antropologia, torna-se evidente que alimentar é um ato político. Ele pode reproduzir lógicas de exploração e mercantilização ou fortalecer relações de cuidado e reciprocidade.


Na economia dominante, o alimento tende a ser reduzido à condição de mercadoria, algo que exclui sua dimensão relacional. Na perspectiva da dádiva de Marcel Mauss, o vínculo pode ser retomado ao reconhecer, no ato de alimentar, uma forma de cuidado e responsabilidade. Diante da padronização alimentar promovida pelo sistema hegemônico, o cuidado reconhece as singularidades, enquanto a agroecologia reconecta o alimento ao território, à cultura e à continuidade da vida.


Repensar a alimentação de cães e gatos, então, não é um gesto secundário, mas uma oportunidade de reimaginar os sistemas alimentares a partir da convivência multiespécie. Ao reconhecer o alimento como relação e o cuidado como fundamento, cria-se um espaço para práticas e políticas que sustentem formas de viver mais justas, interdependentes e coerentes com os limites de toda a biosfera.


Para resumir e finalizar, ao colocar em diálogo a agroecologia e a antropologia, torna-se possível perceber que os sistemas alimentares não são estruturas neutras nem meramente técnicas, mas expressões importantes de valores e de formas de organização da vida coletiva.


A antropologia evidencia que alimentar é um ato social carregado de significados, capaz de produzir vínculos, responsabilidades e pertencimento, inclusive no convívio multiespécie que caracteriza muitas famílias contemporâneas. A agroecologia, por sua vez, demonstra que o alimento nasce das relações entre os territórios, a biodiversidade, trabalho humano e cultura, e que sua produção está inseparavelmente ligada à justiça socioambiental e à continuidade dos sistemas vivos.


Ao aproximar essas perspectivas, este ensaio evidencia que a hegemonia dos ultraprocessados na alimentação de cães e gatos não é apenas uma questão prática, mas um efeito consequente da lógica econômica dominante, que transforma alimento em mercadoria padronizada e deslocada das relações que a sustentam.


Por isso, o debate sobre a alimentação dos pets revela, em escala cotidiana, como o mercado estrutura hábitos, produz dependências e invisibiliza impactos sociais, sanitários e ecológicos. Ao refletir sobre a alimentação dentro da família multiespécie, este ensaio demonstra que escolhas aparentemente individuais estão inseridas em sistemas mais amplos e podem orientar transformações concretas, fortalecer economias territoriais, valorizar a agricultura agroecológica e reforçar o cuidado como princípio primário da vida social.


Repensar como alimentamos todos aqueles com quem compartilhamos a existência deixa de ser um ato individual e passa a constituir uma prática política, que é capaz de reafirmar a continuidade da vida como horizonte comum.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


AGUIAR, Melanie de Souza de; ALVES, Cássia Ferrazza. A família multiespécie: um estudo sobre casais sem filhos e tutores de pets. Pensando fam., Porto Alegre, v. 25, n. 2, p. 19-30, dez. 2021. Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-494X2021000200003&lng=pt&nrm=iso>.

 

HARAWAY, D. The companion species manifesto: dogs, people, and significant otherness. Chicago: Prickly Paradigm Press, 2003.

 

MAUSS, M.; LEVI-STRAUSS, C. Ensaio sobre a dadiva. Lisboa: Edicoes 70, 1988.

 

OSÓRIO, A. B. Guloseimas para animais de estimação: comensalidade, afeto e antropomorfismo. Mediações - Revista de Ciências Sociais, v. 24, n. 3, p. 57, 11 dez. 2019.

 

SPITZER, L. On the Etymology of pet. Language, v. 26, n. 4, p. 533, out. 1950.


SOBRE A AUTORA


natalia leao eliam

Natália Leão Eliam é médica-veterinária graduada pela Escola de Veterinária e Zootecnia da Universidade Federal de Goiás (EVZ - UFG) e aluna de pós-graduação em Agroecologia: novos paradigmas em sistemas alimentares sustentáveis pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC - PR).

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