A alimentação de cães e gatos como ponto cego das políticas públicas de segurança alimentar e desenvolvimento rural
- Natalia Eliam
- 19 de jan.
- 5 min de leitura
Este texto foi escrito como trabalho final da disciplina Políticas públicas, sistemas alimentares e impacto global, da pós-graduação em Agroecologia que curso na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Publico este artigo com o desejo de provocar novas reflexões, especialmente sobre a forma como nossos sistemas alimentares impactam não apenas a saúde das pessoas, mas também a dos animais de estimação.
A alimentação de cães e gatos ocupa hoje um lugar paradoxal nos sistemas alimentares atuais. Ao mesmo tempo em que movimenta uma das maiores indústrias do agronegócio mundial, baseada majoritariamente na produção de rações ultraprocessadas, ela permanece praticamente invisível nos debates sobre segurança alimentar e nutricional, desenvolvimento rural e políticas públicas. Essa invisibilização impede uma análise crítica sobre os impactos sociais, ambientais e sanitários do modelo vigente de alimentação de animais de companhia, bem como a construção de alternativas alinhadas aos princípios da agroecologia.
O problema central consiste na hegemonia de um sistema alimentar industrial para cães e gatos, altamente dependente de monoculturas, cadeias longas de produção, uso intensivo de insumos químicos e da lógica do ultraprocessamento. Esse modelo se sustenta não apenas pela força econômica das grandes indústrias de ração, mas também pela ausência de políticas públicas que reconheçam a alimentação de animais de companhia como parte integrante dos sistemas alimentares e das estratégias de segurança alimentar em sentido ampliado.
É inegável que é primário e primordial o enorme desafio que consiste na construção e garantia de justiça alimentar para a sociedade humana. Mesmo assim, faz-se necessário destacar a participação histórica, evolutiva e afetiva dos animais de estimação dentro dos núcleos familiares, fato responsável pela origem do termo moderno “família multiespécie”. Como consequência desse convívio, do ato de antropomorfização dos animais e da ausência de conscientização a respeito de diretrizes nutricionais baseadas em saúde pública também para cães e gatos, consolida-se a ideia de que as rações industrializadas são a única forma segura, prática e acessível de alimentar cães e gatos, desconsiderando tanto a fisiologia dessas espécies quanto os impactos estruturais desse sistema.
Esse problema se manifesta de forma ampla no contexto urbano brasileiro, especialmente em cidades de médio e grande porte, nas quais a maior parte das pessoas opta por produtos industrializados para alimentar seus animais, os quais podem ser referidos pelo termo pets. A realidade observada em clínicas veterinárias e na rotina profissional evidencia um cenário marcado pelo desconhecimento dos tutores sobre alternativas alimentares, pela dificuldade de acesso a informações técnicas qualificadas e pela inexistência de políticas de apoio à produção, acessibilidade e do uso de alimentos frescos e biologicamente apropriados para as espécies dos pets. Ao mesmo tempo, agricultores familiares e produtores agroecológicos permanecem excluídos dessa cadeia alimentar, apesar do potencial de fornecimento de alimentos in natura, locais e diversificados.
As populações mais diretamente afetadas por esse modelo são, em primeiro lugar, os próprios cães e gatos, frequentemente submetidos a dietas biologicamente inadequadas e associadas ao desenvolvimento de doenças crônicas, como distúrbios metabólicos, gastrointestinais, ortopédicos e dermatológicos. Também são afetados os tutores, especialmente aqueles de baixa e média renda, que se tornam dependentes de um mercado concentrado, com pouca autonomia alimentar e alto custo financeiro ao longo da vida do animal, inclusive, para remediar condições que possuem como causa primária o consumo crônico e desmedido do alimento industrializado.
De forma mais ampla, o meio ambiente sofre os efeitos da expansão das monoculturas que também são destinadas à indústria pet, do uso intensivo de agrotóxicos e da geração de resíduos, enquanto o sistema de saúde veterinário é pressionado por um modelo que medicaliza problemas cuja origem, muitas vezes, está na alimentação. De modo paralelo, é possível visualizar um cenário muito semelhante na sociedade humana.
A superação desse problema exige a mobilização de diferentes recursos e atores sociais. Do ponto de vista humano e institucional, é fundamental envolver médicos veterinários, extensionistas rurais, universidades e programas de extensão (ambos livres do fomento de empresas atuantes no mercado, algo contrário do que existe na realidade), com o objetivo de promover a formação crítica em nutrição animal sob a perspectiva da agroecologia e da saúde única.
Recursos financeiros e institucionais devem ser direcionados ao fomento de projetos que integrem agricultura familiar, produção agroecológica, alimentação de pessoas e animais de companhia, fortalecendo cadeias curtas de produção e circuitos locais de comercialização. Além disso, é necessário criar e fortalecer espaços democráticos de debate, nos quais a sociedade civil possa incidir sobre políticas públicas relacionadas aos sistemas alimentares, ampliando o conceito de segurança alimentar para dentro da família multiespécie.
É importante dizer que, dentro desse raciocínio, seria fundamental contar com outras políticas públicas voltadas para o controle populacional de pets, com abordagem rígida, a partir da implementação da obrigatoriedade de capacitação para tornar-se responsável por um animal de estimação, também de capacitação e registro para tornar-se um criador, juntamente com a identificação em sistema nacional e rastreamento dos indivíduos cães e gatos. Dentro da minha utopia, essa talvez seja a maior delas.
Atualmente, o ato de adquirir um animal de estimação não passa por nenhum tipo de monitoração, e, muitas vezes, esses animais são negligenciados - quando não simplesmente abandonados - por toda a vida em suas necessidades básicas, seja por desconhecimento, seja por onerosidade dos cuidados, pois os custos envolvidos na criação de um pet podem ser altos, a depender do porte do animal e das condições de saúde que ele pode apresentar ao longo de toda a vida.
Como propostas concretas, destaca-se o potencial da agricultura familiar e agroecológica na construção de sistemas alimentares alternativos para a alimentação de cães e gatos. Isso inclui iniciativas de compras institucionais, projetos-piloto municipais, apoio a cooperativas e associações de produtores, além da elaboração de materiais educativos voltados a tutores e profissionais da área veterinária. A articulação entre campo e cidade, mediada por políticas públicas e ações de extensão, poderia contribuir para a diversificação dos sistemas alimentares, a redução da dependência de ultraprocessados e o fortalecimento de economias locais.
Os principais resultados esperados a partir dessas transformações envolvem a melhora da saúde e da qualidade de vida de cães e gatos, o aumento da autonomia alimentar dos tutores, a valorização da agricultura familiar e agroecológica e a redução dos impactos ambientais associados à indústria de rações que, não por acaso, são as mesmas que produzem a maioria dos ultraprocessados direcionados ao consumo humano.
Ao integrar a alimentação de pets no debate sobre sistemas alimentares e segurança alimentar, é possível avançar também na consolidação de uma abordagem de saúde única, que reconhece a interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental. Dessa forma, entendo a agroecologia como um caminho poderoso para repensar não apenas o que comemos, mas também como alimentamos os integrantes da família multiespécie, com os quais compartilhamos nossos espaços, alimentos e, enfim, nossas vidas.
SOBRE A AUTORA

Natália Leão Eliam é médica-veterinária graduada pela Escola de Veterinária e Zootecnia da Universidade Federal de Goiás (EVZ - UFG) e aluna de pós-graduação em Agroecologia: novos paradigmas em sistemas alimentares sustentáveis pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC - PR).



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