O que são os carboidratos?
- Natalia Eliam
- 20 de jun. de 2025
- 11 min de leitura
Atualizado: 21 de jun. de 2025
Açúcar. Ponto.
... Poderia ser simples assim, certo? Mas não é.
Essa publicação é uma continuação da sequência que começou com o tema sobre o que são as proteínas. Se você ainda não viu esse artigo, recomendo que comece por lá. Aqui falaremos sobre os carboidratos, muitas vezes enaltecidos, outras vezes injustiçados.
Os carboidratos, assim como as proteínas, também são macronutrientes. São estruturas que podem variar desde partículas simples, como a própria glicose que, em outras palavras, é o açúcar, até estruturas complexas, formadas por cadeias de centenas ou até milhares de moléculas de glicose ligadas entre si, o que recebe o nome de amido.

Para explicar melhor, a menor fração possível de um carboidrato é a molécula de glicose. A glicose, por sua vez, é utilizada pelo organismo para a produção de energia. No corpo, ela passa pelo processo de oxidação e gera ATP para as células. Entenda o ATP figurativamente como uma moeda de energia. De nome complicado, o trifosfato de adenosina (ATP) é essencial para a vida, pois atua como a principal fonte de energia em todas as células vivas.
Durante anos, e até hoje, os carboidratos são frequentemente vilanizados, e muitas vezes acabam recebendo a carga total de culpa por questões que não cabem só a eles: ganho de peso, inflamação, resistência à insulina, diabetes… e por aí vai. Assim como não é simples reduzir carboidratos apenas ao açúcar, também não é justo culpá-los de forma tão simplista.
Nas próximas linhas, espero trazer um pouco mais de compreensão sobre esse tema, especialmente dentro do universo da nutrição de cães e gatos. Será, então, que o carboidrato é mesmo um grande vilão?

Na verdade, se o carboidrato pudesse ser comparado de forma figurativa, estaria muito mais para um anti-herói. Nos filmes e séries, o vilão é aquele que sempre age com maldade, não há bondade nele. Na outra extremidade está o herói, que é capaz de fazer o que for necessário pelo bem. O anti-herói, por sua vez, apresenta em seu comportamento os dois extremos, e isso varia conforme as condições que lhe são impostas.
CARNÍVOROS COMEM CARBOIDRATOS?
É importante entender que o carboidrato não é um ingrediente, mas um nutriente, comumente presente em praticamente todas as formas de vida. Está nas plantas, nos fungos e nos animais. Para introduzir o meu ponto, precisamos entender que carboidratos são ingeridos até mesmo por animais selvagens que são obrigatoriamente carnívoros, sempre que ocorre o consumo de uma presa na natureza, por exemplo.
Isso acontece quando consideramos que aproximadamente 0,7% do peso da musculatura esquelética de uma presa é glicogênio muscular, enquanto 5% do peso do fígado corresponde ao glicogênio hepático. O glicogênio é um estoque de glicose, é a forma como a glicose é armazenada no corpo dos animais. Além disso, existe também a glicose presente na corrente sanguínea.
Esse cenário serve apenas para ilustrar as condições naturais de como ocorre o consumo da glicose na natureza, até mesmo por animais selvagens que são obrigatoriamente carnívoros. Mas essa não é a realidade das carnes comercializadas que usamos para alimentar nossos cães e gatos. Esses estoques de glicose são degradados em até 24 horas após a morte do animal, devido ao processo de rigor mortis.
Considerando as condições naturais, perceba que o consumo de carboidratos é regrado, limitado, não há exageros, e eles representam uma baixa proporção dentro da totalidade do que é consumido. Ainda nesse cenário, o carnívoro selvagem precisa caçar antes de comer, o que exige exercício físico moderado a intenso antes que ele possa, finalmente, se alimentar.
Nesse caso, por que, então, o carboidrato presente no sangue, nos músculos e no fígado da presa não faz mal, se é puro açúcar?
Para entender essa situação, precisamos de um breve aprofundamento sobre o metabolismo. Digo isso porque, no momento em que essa presa é consumida, existe uma grande demanda metabólica por carboidratos. Vou explicar.

Após a atividade de caça, que requer esforço físico de intensidade moderada a intensa, o metabolismo é ativado para utilizar a própria glicose sanguínea e também parte dos estoques de glicogênio. Ou seja, o predador precisa acessar a energia que tem armazenada para caçar. Quando o momento da caça chega ao fim, o corpo "pede" essa energia de volta, já que os estoques de glicose foram utilizados e agora esse nutriente vital está em falta. Com o consumo do alimento, que traz proteínas, gorduras e também carboidratos, isso tende ao equilíbrio novamente.
Além disso, é importante destacar que esse carboidrato vem da fonte mais in natura possível: a própria presa, seu sangue, suas vísceras. Esse carboidrato não passou por nenhum tipo de processamento industrial antes de ser consumido, ele está presente na matriz original do alimento fresco. E esse é um ponto muito importante. Em breve, eu retorno a ele.
CÃES PODEM COMER CARBOIDRATOS?
Para cães, que são carnívoros domésticos, o consumo do carboidrato pode ser um amigo, ou um inimigo para a saúde. Dependerá se o alimento que carrega o nutriente é um alimento fresco e apropriado para a espécie, também da demanda metabólica individual por ele e da assertividade em oferece-lo na forma e quantidade adequadas e, principalmente, no momento certo do dia.
Cadelas gestantes ou lactantes, cães em crescimento, cães idosos, cães em dietas terapêuticas, cães atletas ou muito ativos fisicamente, entre outros exemplos. Existem diversos cenários nos quais a introdução estratégica de fontes de alimentos frescos e que contêm uma quantidade maior de carboidratos na composição nutricional pode ser favorável, dentro de um contexto específico.
Também é importante considerar a oferta do alimento que é fonte de carboidrato sempre dentro de refeições completas, junto com fontes de outros nutrientes como proteínas, gorduras e fibras. Isso evita que o carboidrato seja rapidamente absorvido e cause um pico de glicemia, que é a elevação abrupta dos níveis sanguíneos de glicose. Quando é oferecido em refeições completas, essa elevação da glicemia ocorre de maneira lenta e equilibrada, que é o que desejamos para a manutenção de um metabolismo saudável.

Um exemplo bastante comum do que seria uma oferta inadequada de carboidratos é o consumo de frutas de maneira isolada ao longo do dia, entre refeições, como uma forma de petisco, de lanche. Essa prática, que é dispensável na grande maioria dos casos, pode contribuir para que ocorram os indesejados picos de glicemia, que é a elevação repentina dos níveis sanguíneos de glicose.
GATOS PODEM COMER CARBOIDRATOS?
Para gatos, a natureza trabalha com outras regras.
Enquanto os cães são classificados como carnívoros facultativos, ou seja, conseguem se adaptar a dietas com maiores quantidades do nutriente carboidrato, existem fatores específicos que tornam os gatos obrigatoriamente carnívoros e intolerantes ao elevado consumo desse nutriente.
Gatos, assim como a maioria dos felinos selvagens, possuem necessidades nutricionais bastante particulares e específicas, e a ingestão de proteínas deve ser a prioridade. Eles necessitam da ingestão diária e suficiente de determinados aminoácidos, que são frações das proteínas, como a arginina e a taurina, para que sejam capazes de manter as funções vitais. Já espécies que não obrigatoriamente carnívoras, como por exemplo os cães, não apresentam as mesmas exigências, pois são capazes de fabricar tais nutrientes no próprio organismo.
É importante saber que o organismo dos gatos prioriza a realização da gliconeogênese para a produção de moléculas de glicose, o que torna dispensável que esse nutriente chegue em grandes quantidades pela alimentação. De origem grega, a palavra gliconeogênese significa "formação de novo açúcar". Em resumo, o metabolismo dos gatos carrega a particularidade de utilizar proteínas para gerar moléculas de glicose.
Quando adicionamos mais carboidratos na alimentação dos gatos, isso não muda a exigência metabólica pela gliconeogênese.
Nesse cenário, adicionamos glicose, que o organismo deles já é altamente eficiente em produzir e, ao mesmo tempo, deixamos de priorizar a adição da proteína, que é essencial e vital, inclusive para a própria produção da glicose.
Além disso, os gatos, diferentemente de humanos e cães, não produzem a enzima glicoquinase. Essa enzima é produzida principalmente pelas células do fígado e atua como um “sensor” que responde à elevação da concentração de glicose no sangue, algo que ocorre quando um alimento rico em carboidratos é consumido.
Quando isso acontece em um organismo que produz glicoquinase, essa enzima é liberada para possibilitar o uso da glicose como fonte de energia ou para direcioná-la à formação de estoques energéticos, na forma de glicogênio hepático e muscular. A questão é que isso não funciona bem no organismo dos gatos, porque eles não têm a atividade dessa enzima.
Para detalhar o impacto disso na saúde dos felinos e trazer comparações, de acordo com o médico-veterinário, professor e pesquisador Thomas Schermerhorn, o metabolismo normal da glicose em gatos saudáveis, assim como em golfinhos, que também são animais carnívoros, se assemelha ao de seres humanos com a doença diabetes mellitus.
Essa comparação foi detalhadamente discutida no artigo de revisão que pode ser acessado ao clicar aqui.

Em resumo, a rotina alimentar de um gato idealmente não deve contar com fontes abundantes de carboidratos. Quantidades pequenas são bem toleradas e podem até ser bem-vindas, especialmente quando vêm de um alimento que também fornece umidade e fibras, como alguns frutos e vegetais específicos, dentro de uma refeição completa, acompanhada dos outros nutrientes, como citado anteriormente no caso dos cães.
Aqui, vale o mesmo raciocínio e, na verdade, é ainda mais importante: evite a oferta de fontes de carboidratos de forma isolada. É uma prática nutricionalmente dispensável e que pode prejudicar a saúde metabólica do bichano. Quantidades limitadas de carboidrato, quando incluídas em uma refeição com proteínas, gorduras e fibras, são absorvidas de maneira mais lenta, e o organismo não precisa lidar com um pico indesejado e abrupto nos níveis de glicose no sangue.
Na conclusão, é importante ressaltar que fontes de carboidratos, embora possam ser favoráveis em alguns casos específicos, especialmente por também fornecerem fibras, podem ser completamente dispensáveis no protocolo alimentar de um gato saudável. Em muitos casos, é até melhor assim.
Como sempre, é preciso individualizar, mas não nos esqueçamos da biologia da espécie: são animais verdadeiramente carnívoros e jamais comeriam fontes muito ricas em carboidratos em um ambiente natural.
QUAL É O DEFEITO DOS CARBOIDRATOS?
Achei um tanto engraçado escrever esse título de tópico, mas acredito que ele seja apropriado para iniciarmos o encerramento do assunto sobre esse macronutriente. Como falei no início da publicação, é muito comum que os carboidratos recebam a culpa por diversas questões que, na verdade, envolvem vários outros fatores.
Nesse ponto da leitura, você já sabe que o carboidrato é um nutriente, que pode estar presente tanto na forma de uma única molécula de glicose quanto como um aglomerado de várias delas, o que recebe o nome de amido. Existem também os carboidratos que funcionam como fontes de fibras alimentares, mas esses não são absorvidos na forma de glicose pela corrente sanguínea.
Como poderia o consumo de um simples nutriente, que participa de reações essenciais à vida, ser algo prejudicial?
Para muitas pessoas, a falta de sentido nesse raciocínio é evidente. Para outras tantas, no entanto, faz sentido vilanizar o nutriente, o que torna difícil saber quem está com a razão.
E a resposta é que, nas duas perspectivas, ninguém tem totalmente razão. Um nutriente isolado não é capaz de fazer mal, mas também não é capaz de fazer bem. Na ótica simplista do nutricionismo, termo criado pelo autor Gyorgy Scrinis, que une as palavras reducionismo e nutrição, olhamos apenas para o nutriente, e não para o alimento que o carrega. Vou explicar melhor.
O consumo de fontes de carboidratos de forma isolada induz uma resposta metabólica diferente daquela provocada pelo consumo de carboidratos associados a proteínas, gorduras e fibras. Isso você já deve ter percebido ao longo do texto.
Comida fresca, in natura ou minimamente processada é diferente de comida ultraprocessada. Se considerarmos a mesma porção de carboidratos nos dois alimentos, certamente o impacto metabólico dos carboidratos presentes em um alimento ultraprocessado é muito mais nocivo, isso porque esses produtos são, em termos simples, “pré-mastigados”.
Alimentos ultraprocessados não apresentam a matriz original do alimento, tal como existe no alimento fresco. Isso faz com que a digestão, a absorção e a resposta metabólica a esse tipo de produto sejam diferentes das observadas com o consumo do alimento fresco. Esses produtos são construídos a partir de ingredientes que um dia foram alimentos, mas foram desmontados, depois remontados e somados a aditivos. É isso que dá origem ao alimento ultraprocessado.
Os alimentos apresentam diferentes índices glicêmicos e cargas glicêmicas. O índice glicêmico indica a velocidade com que o alimento aumenta a glicose no sangue. Já a carga glicêmica mostra o impacto total desse alimento nos níveis de glicose, levando em conta tanto essa velocidade quanto a quantidade de carboidratos presentes na porção consumida. Tudo isso deve ser considerado quando avaliamos se o consumo de uma fonte de carboidrato é apropriado ou não.
Bom, e aqui está o ponto de encerramento: apropriado para quem? Em qual situação?
Não existem regras absolutas sobre o que é ou não apropriado. Somos todos organismos complexos, e respostas simples não dão conta de responder completamente essa pergunta.
Quando falamos desse assunto no universo dos humanos, estamos falando de uma criança, um adulto ou um idoso? Como é a rotina dessa pessoa? Qual é seu histórico de vida, suas particularidades? Qual é o nível de atividade física? Como é a rotina alimentar? Com que frequência se alimenta? Está bebendo água suficiente ao longo do dia? Como está a qualidade do sono? Existe descanso real? Como está a saúde emocional, o cuidado com a mente, e com o próprio ambiente?
Para cães e gatos, o raciocínio deve seguir pelo mesmo caminho.
É necessário sempre olhar para o indivíduo antes de estabelecer regras sobre o que é adequado ou não. Não existe nutriente bom ou ruim. Não existe certo ou errado. O que existem são diversos cenários individuais, e o que pode ser feito em cada um deles, respeitando as particularidades de cada pessoa ou animal, jamais deve se basear na simples presença ou ausência de um nutriente como se ele fosse um vilão ou um herói.
Isso é o puro nutricionismo, e precisamos enxergar muito além dessa perspectiva reducionista para compreender a nutrição com toda a profundidade que ela realmente tem.
CARBOIDRATOS NAS RAÇÕES SECAS
Quero finalizar essa publicação com esse tópico fundamental na nutrição de cães e de gatos. Como vimos anteriormente, a ração seca para cães e gatos é um alimento ultraprocessado. Também vimos que cães e gatos são animais carnívoros, com a observação de que cães são facultativamente carnívoros, enquanto gatos são obrigatoriamente carnívoros e não toleram quantidades elevadas de carboidratos em sua alimentação.
Vamos lembrar aqui brevemente que cães e gatos são carnívoros domésticos, ambos não apresentam a mesma aptidão biológica para prosperarem em termos de saúde em uma dieta que não prioriza a proteína como macronutriente principal e que traz o excesso de carboidratos. As duas espécies não possuem a ação enzimática necessária (ausência da amilase salivar nas duas espécies; ausência da glicoquinase nos gatos), possuem o pH estomacal ácido e adaptado para a digestão química de quantidades maiores de proteínas, possuem intestinos curtos, além da anatomia adaptada para a atividade de caça e predação. Biologicamente, ao longo de milhares de anos de evolução das espécies, foram moldados para o consumo de carnes, vísceras e ossos carnudos crus. Rações secas são, por si só, um alimento potencialmente nocivo para a saúde, porque são ultraprocessados e fogem completamente do que é apropriado para a espécie, em diversos aspectos. No caso específico das rações secas para gatos, a situação possui um agravante que é a quantidade de carboidratos na composição nutricional.
Todas as rações secas para gatos possuem quantidades excessivas de carboidratos para a espécie, que vêm de fontes inapropriadas, como as farinhas de grãos. Nesse sentido, é duplamente inadequado para a natureza da espécie.
O cenário atual de sobrepeso, obesidade e doenças crônicas em cães e gatos domésticos é crescente, o que está intimamente ligado com o padrão que alimentação que costumam receber. Infelizmente, é impossível conciliar saúde, bem-estar, alimentação ultraprocessada e desrespeito com as necessidades básicas das espécies.

Por enquanto, encerraremos aqui o assunto sobre os carboidratos. Em breve volto para falar sobre as gorduras.
Eu trabalho exclusivamente com a nutrição de cães e gatos há alguns anos e testemunho diariamente como a comida verdadeira, planejada de acordo com as necessidades nutricionais da espécie, pode transformar vidas. Ou até mesmo salvá-las.
Se você está considerando mudar a alimentação e a saúde do seu amigo peludo, ficarei feliz em ajudar.
Entre em contato para mais informações e orientações personalizadas!
Atenciosamente,
Natália.

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